Atualmente, o mundo se debate em busca de um caminho novo porque os que nos são oferecidos dão sinais de esgotamento. Não há valores morais reconhecidos e aceitos popularmente. Sempre existiram algumas regras morais que determinavam o comporta-mento das pessoas, refreando os impulsos inferiores.
 Apesar de absurdas atualmente, na época de sua vigência, essas regras serviam e eram aceitas sem problemas. Até as normas ilógicas religiosas eram úteis para conter comportamentos impróprios que beiravam a selvageria. Mas, hoje em dia, o culto à lógica e à razão não permite aceitar qualquer postulado ou dogma vazio de conteúdo racional. Por isso, os dogmas da igreja, sem provas lógicas ou científicas, foram substituídos por filosofias negativistas (1), dentre elas: O Positivismo de Augusto Comte, O Natura-lismo de Hegel, O Materialismo de Stuart Mill. Estas filosofias negam tudo que não seja comprovado por regras científicas.
 
Isso ocorreu como defesa necessária contra o arbítrio do domínio religioso que determinava regras aos fiéis, sem explicar racionalmente seus fundamentos, não respei-tando nem mesmo a inteligência e a lógica. Assim, se estabeleceu a fuga das coisas de fé. Entendiam-se as coisas religiosas como apartadas das coisas da razão. E assim o mundo se tornou positivista, não acreditando em nada que não pudesse ser provado pelas regras da Ciência.
 
Mas hoje esse sistema, que determinou uma evolução extraordinária no mundo moderno, se esgota. Ainda pode nos dar muito, mas sem fornecer nada além do que é material, porque não alcança as coisas do espírito. Mesmo aquilo que se presumia como certo e absoluto, pelas próprias regras científicas estabelecidas, se prova duvidoso o que era certo, agora é apenas provável, já que a física dos corpos diminutos respeitam regras diversas da física newtoniana.
 
A ciência só aceita o que for comprovado por suas regras absolutas. Absolutas mesmo? Será? Ou ela, a ciência, é apenas uma probabilidade aceita momentaneamente? A física quântica, a teoria da relatividade, a teoria matemática da incompletude de Gödel e outras colocam as certezas científicas em cheque.
 
As universidades não ensinam nada que seja aplicado aos sentimentos e às emo-ções, ensinam apenas técnicas, pondo de lado o que diz respeito ao amor e ao espírito. Buscam a evolução da matéria palpável, visível e perceptível, mas aquilo que importa à evolução espiritual não é assunto acadêmico. Não forma doutores no amor, na caridade, na renúncia ou na humildade. Não propõe valores morais nem éticos porque tudo é dire-cionado no sentido da busca do econômico, iludindo a juventude.
Muitos acreditam que, ao completara o curso, sairão das universidades para galgar melhores empregos e posição social. A maioria nem isso consegue. Quase todos não se tornam pessoas melhores com o diploma, podem evoluir o conhecimento técnico, mas estacionam espiritualmente, se dependerem somente da universidade para isso.
E agora, sem a igreja ou a universidade, o que guiará nossa consciência e conse-quentemente a nossa conduta?
 
Baseando-se nas filosofias que pregam a negação do que não é físico, não há crenças, princípios e valores, estamos entregues a paixões e ambi-ções desenfreadas na busca da satisfação apenas dos sentidos físicos. Ética é uma pala-vra vaga, sem sentido claro.
 
Mas o Pai Celestial jamais abandona seus filhos porque é necessário sempre um guia para nos levar a algum lugar; não temos como nos dirigir sozinhos ainda. Por isso, a história sempre nos mostra a providência divina oferecendo um norte à consciência humana.
 
Na Antigüidade, o que guiava as consciências eram os deuses. Cada qual respeita-va o seu deus e a ele se mantinha fiel, respeitando seus mandamentos por temor ao casti-go que poderia ser imposto pelo sacerdote. As calamidades naturais como enchentes, pestes, secas e outras eram tidas como manifestação da divindade descontente com os homens, de modo que era necessário agradar ao poder que controlava a natureza ou al-gumas vezes se confundia com ela própria. Assim, criaram-se regras a fim de contentar os deuses. Estas regras serviam de freio moral, de controle aos seres humanos num tem-po rudimentar da Antigüidade.
 
Com o desenvolvimento humano, após algum tempo, ficou claro que havia algo errado: se havia vários deuses, também havia uma disputa entre eles. Qual era o mais forte? Este ou aquele? Necessariamente, deveria existir um deus mais forte que todos os outros, que determinava qual deles venceria em caso de confronto.
 
Seja por razões religiosas ou políticas, não sabemos ao certo, no século IV a.C., o faraó Amenofis IV, que depois adotou o nome de Akenaton, determinou a seu povo a adoração de um deus único, o deus Aton, o deus sol que guiava a conduta de todos e sobrepunha todos os deuses mais adorados no politeísmo egípcio da época de Amon, Rá e Hórus.
 
Um século depois, Moisés desce do monte com as regras que serviria para guiar seu povo que já se dirigia para o bezerro de ouro. Os dez mandamentos era a lei possível à época porque a mente humana só entendia um Deus cruel, malvado, vingativo e cheio de paixões humanas. Era o olho por olho, dente por dente. Obedecia-se ainda à lei por temor aos castigos divinos.
 
Mais tarde, essa lei já não servia ao intelecto humano, quase tudo se resumia em cerimônias e costumes vazios de sentido. Veio o Mestre dos Mestres e, com o “dar a outra face”, inaugurara a lei de caridade e amor ao próximo, abolindo a vingança. Não aboliu a lei de Talião, apenas esclareceu seu real significado. Deus, justo e bom por na-tureza, não se vinga de ninguém. A verdadeira lição mal compreendida é a lei universal que determina que cada um recebe dê acordo com que deu ao próximo. Quem oferece caridade e amor os recebe de volta. Mas, aquele que oferece dor e sofrimento também os recebe em retorno, ou seja, a cada um segundo as suas obras boas ou más. Essa lei de-termina simplesmente arcar com as conseqüências de nossas atitudes com relação aos outros. Por isso o erro humano de interpretação; pensavam que aquele que causa mal ao semelhante deveria receber o mesmo mal aqui na terra pelas mãos do poder político. Não é assim, o equilíbrio só é restabelecido pelas leis universais de retorno e não pelas mãos vingativos dos homens. A resposta à questão 764 do Livro dos Espíritos esclarece está questão. (2)
 
O tempo é inexorável, e a natureza humana se encarregou de torcer as lições do Mestre em favor de alguns poucos e em detrimento de toda a humanidade. Mas, mesmo distorcidos, os ensinamentos de Jesus ainda servirão por muito tempo como guia da mente humana. “Comporta-te como determina a Igreja, que é a voz de Deus na terra, ou irás para o Inferno eterno”. Não é razoável uma fé cega, mas servia como freio às pai-xões violentas de espíritos ainda pouco evoluídos.
 
A inteligência evoluiu tornando incognoscível a lógica das afirmações da Igreja por que não trazia provas de seus argumentos. Um marco desta evolução é René Descar-tes com seu “Discurso do Método” de 1619. Afirmava ele que não devemos acreditar em nada que não esteja evidente aos sentidos, devemos duvidar metodicamente daquilo que nos é apresentado. A única coisa que não precisa ser provado cientificamente é que so-mos seres que pensam. Ele ofereceu um método que serviu de base às ciências. A impo-sição eclesiástica para que todo ser humano acreditasse nos dogmas da igreja sem qual-quer razão lógica não servia mais. Procurou-se outro guia para a humanidade.
 
Contra os dogmas, a ciência nega qualquer coisa além do que possa ser captado pelos sentidos. Útil no seu tempo para afastar o poder clérigo, mas que agora se esgota porque leva a desesperança e a descrença. Desenvolve-se a energia nuclear e criam-se bombas com poder calamitoso, desenvolvem-se tecnologias da agricultura e grande parte do mundo passa fome, formulam-se medicamentos modernos, mas acessíveis só para algumas pessoas. Absolutismo, liberalismo, socialismo, comunismo e democracia. Seja qual for o sistema ou governo, sempre uma classe ou classes dominam todas as outras. Tanta “evolução” científica e social, e assim mesmo, o mundo, ainda pobre de espírito, se envolve em guerras e massacres.
 
O nada, além do que é palpável fisicamente, leva a conseqüências mortais. Com base nas filosofias que dominam os dias de hoje pergunta-se: Porque não matar para obter lucros? Porque não exibir pornografia para crianças na TV desde que eleve a audi-ência? Porque não derramar bombas em povos humildes para subtrair petróleo, territó-rio, mercado, etc.? A lei não me pega, Deus não existe, após a morte nada existe nem para mim nem para minhas vítimas, portanto qualquer comportamento é válido para ob-ter aquilo que eu quero. Em resumo, para que viver se a morte é bem mais simples, nada de dor de nenhuma espécie, nem físicas nem morais. O suicídio é o caminho lógico. Novamente, estamos sem um guia que possa nos levar a destinos menos cruéis e insanos.
 
Mas como dissemos no começo, o Pai nunca abandona seus filhos. E, como foi prometido pelo Mestre, hoje chega um novo guia para a humanidade. Ele reafirma as lições cristãs numa linguagem compatível com o homem atual que agora pode compre-ender melhor os fatos passados há dois mil anos.
 
Agora graças ao Espiritismo, codificado por Allan Kardec, sei de onde vim, o que estou fazendo aqui e para onde vou. Vim de encarnações anteriores a fim de reparar er-ros do passado, expiando aqui as minhas escolhas erradas para garantir um futuro melhor após várias encarnações. Assim, todas as minhas escolhas me pertencem porque arco com o ônus do livre arbítrio. A morte não me livra das conseqüências de minhas ações. Sou livre na escolha e escravo nas conseqüências.
 
No passado, seguíamos as leis de Deus e fazíamos o bem por temor ao castigo; ho-je, seguimos as leis divinas em busca de uma boa conseqüência para recebermos o méri-to das boas ações. Num futuro, quem sabe?, faremos efetivamente o bem pelo bem sem esperarmos nenhum pagamento ou prêmio. Como espíritos superiores, trabalharemos somente por amor como o Rabi da Galiléia — Ele que nada pediu ou recebeu como re-compensa pelo bem que fez, a não ser o galardão da felicidade de socorrer os fracos e oprimidos, os cegos e os estropiados.
 
Que possamos todos nós receber essa luz que vem do Mestre e nos guiar num caminho que leve a Consciência Suprema, transformando nosso planeta num ponto lumi-noso no espaço.
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Nota:
1 - Termo utilizado por Léon Denis em seu livro: O Problema da Dor.
2 - 764. Disse Jesus: Quem matou com a espada, pela espada perecerá. Estas palavras não consagram a pena de talião e, assim a morte dada ao assassino não constitui uma aplicação dessa pena? “Tomai cuidado! Muito vos tendes enganado a respeito dessas palavras, como acerca de outras. A pena de talião é a justiça de Deus. É Deus quem a aplica. Todos vós sofreis essa pena a cada instante, pois que sois punidos naquilo em que haveis pecado, nesta existência ou em outra. Aquele que foi causa do sofrimento para seus semelhantes virá a achar-se numa condição em que sofrerá o que tenha feito sofrer. Este o sentido das pa-lavras de Jesus. Mas, não vos disse ele também: Per-doai aos vossos inimigos? E não vos ensinou a pedir a Deus que vos perdoe as ofensas como houverdes vós mesmos perdoado, isto é, na mesma proporção em que houverdes perdoado, compreendei-o bem?”.
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João Francisco Crusca é delegado da Polícia Civil do Estado de São Paulo, membro da UDEsp (União dos Delegados Espíritas do Estado de São Paulo) e membro do Centro Espírita Grupo Fraterno, na capital paulistana.