Notamos que, na atualidade, os veículos da mídia, de forma geral, têm veiculado diversos programas e matérias com relação ao contato dos vivos com os mortos por intermédio de médiuns.    Na TV aberta, a novela O Profeta é quase toda focada num médium de muitos recursos. Ele os emprega de todas as formas imagináveis. Em Páginas da Vida, outra novela, relata-se também intervenções de Espíritos entre os homens.
 
Na TV por assinatura, existem muitos outros programas que tratam do assunto da relação “mortos” e “vivos”. O Goost Wisperer, em cartaz na Sony Entertainment Television apresenta uma personagem chamada Melinda Gordon. Ela conversa com recém-desencarnados que ainda teriam assuntos a resolver aqui e, por isso, se manifestam por intermédio dela até resolvê-los. Se isso fosse real, poucos abandonariam a crosta terrestre, porque todos nós, ao desencarnar, sempre deixamos algo inacabado. Sempre estaríamos preocupados com alguma coisa: nossos entes queridos, nosso trabalho, nosso patrimônio, nossos erros e acertos. Por isso, há grande dificuldade de abandono repentino quanto a preocupações da existência física. Além de tudo, precisaremos muito mais do que algumas semanas na terra como Espíritos para resolver tudo que é de nossa responsabilidade. Só esse motivo já deveria ser suficiente para muitos compreenderem a necessidade das reencarnações.
Na série intitulada Médium veiculada pela Sony Entertainment Television, uma sensitiva auxilia a polícia a resolver casos complexos com informações sempre confusas, obtidas em sonhos e visões, mas que acabam sempre por solucionar os casos.
 
Esses filmes são de ficção, úteis para divertimento, por isso, não estão comprometidos com nenhum estudo sério a respeito do assunto. Mas existem outros, como Detetives Psíquicos, veiculados pelo Discovery Channel, que têm a pretensão de mostrar a realidade de casos que realmente teriam ocorrido na América do Norte. Neles, são apresentados médiuns que trabalham em conjunto com a polícia, em investigações de difícil solução pela ausência de indícios ou provas. É obvio que o programa só apresenta os casos que deram certo, os erros não são lembrados.
 
Tenho também presenciado em nossa vida profissional colegas que tocam no assunto com curiosidade e interesse. Infelizmente, alguns se referem a isso com desdém, quando sabem que defendemos a Doutrina Espírita, porque não acreditam em nada referente à espiritualidade. Mas existem policiais espíritas que externam satisfação quando percebem a difusão da idéia de que os médiuns poderiam solucionar casos intrincados com a intervenção de Entidades Espirituais. Chegam a defender a inclusão de médiuns como auxiliares regulares no trabalho policial. Afinal, nada melhor do que perguntar à própria vítima de homicídio quem a teria assassinado.
No mundo jurídico existem notícias de que intervenções de Entidades, por intermédio da psicografia, teriam influenciado em julgamentos. Como exemplo, apenas podemos nos referir ao caso do assassinato de Ercy da Silva Cardos, em Viamão, RS. Numa carta psicografada pelo médium Jorge José Santa Maria, a vítima do crime inocentava a acusada Iara, mas não apontava o real autor do delito. A ré foi absolvida.
 
Tudo isso inspira a falsa impressão de que, em breve, poderemos contar com o trabalho de Criaturas Espirituais em busca da verdade a respeito de crimes. Que maravilha! Não precisaremos mais de policiais nem de juízes, tudo nos seria revelado pelos mortos, poupando um monte de trabalho e despesas. E o mais importante ainda: não cometeríamos injustiças, punindo inocentes e absolvendo culpados, afinal os Desencarnados saberiam de tudo sem nada podermos esconder deles.
Tudo isso é compreensível, considerando que o ser humano sempre procura evoluir em busca de mecanismos que facilite a vida e evite injustiças. Mas esta busca deve ser orientada pela razão. Não podemos nos iludir com aquilo que não conhecemos, aceitando prematuramente conclusões porque gostamos delas. Por mais que pareçam simpáticas e populares, despertando, portanto, sentimentos naturais de curiosidade, elas não carregam necessariamente em si a verdade.
Gostamos de ver os Desencarnados resolvendo os problemas por nós, mas nos negamos a realmente estudar o assunto de forma séria e crítica. Assim, ficamos satisfeitos com o que aparece na tela da TV e acabamos por acreditar que isso tudo pode ser verídico.
 
Vamos então buscar nos médiuns a solução de nossos problemas. Eles, em contato com seres desencarnados, nos dirão tudo que quisermos... Vamos interrogá-los a respeito de tudo desde onde está um objeto que perdemos até os números premiados da loteria da semana seguinte... Vamos pedir informações sobre a vida afetiva, doenças, trabalho, tesouros escondidos, senhas de contas bancárias, etc. Não é surpresa que muitos são ludibriados por vários enganadores vivos e mortos. E depois de serem enganados, acusam as Entidades e tudo que se lhes relacionam, afirmando ser tudo mentira e enganação. Afinal, se assim fosse possível, porque os médiuns que têm “acesso direto” aos mortos, não são todos milionários? Na verdade, os próprios médiuns podem ser vítimas de enganos e ilusões quando pensam poder manipular Espíritos, para que trabalhem para eles sempre que quiserem. Muitos não querem acreditar que não podem dominar o mundo espiritual, afinal, se não têm este poder perdem muito prestígio na comunidade.
 
Se estudassem o assunto de forma crítica, saberiam a real missão dos Mentores Espirituais e do Espiritismo na Terra, e não ficariam à mercê de Entidades enganadoras, mistificadoras, brincalhonas e inconseqüentes.
 
Mas os Espíritos superiores, que ditaram as bases da Doutrina Espírita, não nos deixam sem orientação. Em várias oportunidades, esclareceram que não podem substituir o trabalho humano ou violar o livre arbítrio.
 
Por sinal, Allan Kardec perguntou a um dos Mentores Espirituais, visando saber se os Espíritos poderiam guiar os homens em pesquisas científicas, invenções e descobertas. Obteve resposta com outra pergunta: “Que mérito teria o homem, se não lhe fosse preciso mais do que interrogar os Espíritos para saber de tudo?” E o Mentor arrematou: “A esse preço, qualquer imbecil poderia tornar-se sábio” (questão n.o 294, O Livro dos Médiuns).2
A Revista Espírita do mês de dezembro de 1868 publicou um artigo que tratava da idéia de criar uma direção central para o Espiritismo, por escolha dos Espíritos. No artigo, Allan Kardec afirmou que a missão deles é instruir-nos e melhorar-nos, e não substituir nossa iniciativa. Os Espíritos nos aconselham em questões morais. As questões materiais são de nossa responsabilidade. Pedir coisas que não são da atribuição dos que não pertencem mais a este mundo nos expõe a Espíritos levianos que irão se divertir com informações erradas.
 
A citada revista, de março de 1861, traz um artigo a respeito do Assassinato do senhor Poinsont. Kardec informa ter recebido várias cartas sugerindo a evocação da vítima, mas nunca o fez, porque o Espiritismo não se presta à satisfação de curiosidade. Entretanto, como um correspondente afirmou ter recebido uma mensagem da vítima, Kardec, então, resolveu perguntar ao seu Guia Espiritual se poderia evocá-la; a resposta foi categórica: “O Senhor Poinsot não pode responder ao vosso chamado; ele não se comunicou ainda com ninguém: Deus o proíbe no momento”. Isto ocorre porque as revelações dessas coisas poderiam influenciar a consciência dos juízes.
Imaginem se os Espíritos afirmarem que alguém é culpado e não haja mais nenhuma prova a respeito. Ou, ao contrário, os Espíritos afirmarem inocência daquele que tem muitas provas contra si. Como fica a consciência daqueles que têm o dever de julgar? Insistindo, Kardec quis saber o porquê de não se revelar a verdade que evitaria erros lamentáveis e irreparáveis. Recebeu como resposta a afirmação de que os julgadores deveriam ser esclarecidos de outra forma, visto que Deus quer lhes deixar a responsabilidade integral de seus julgamentos e também o mérito do seu trabalho. Não devemos nos preocupar com o culpado que escapa à justiça da terra — este jamais escapará da justiça divina! Quanto ao inocente condenado, Deus saberá compensá-lo do erro humano. Além disso, não sabemos se tal injustiça não lhe é útil, em prol do seu adiantamento espiritual, ou se é uma condenação por delito praticado em outra encarnação da qual escapou da pena.
Após estes esclarecimentos, o médium escreveu como se fosse o Espírito do Senhor Poisont. Kardec, ao perguntar quem era ele, em nome de Deus, fez com que o enganador não tivesse coragem de mentir; afastou-se da reunião. Em seguida, o Guia de Kardec se manifestou e concluiu sua instrução, esclarecendo que a insistência o levaria fatalmente à enganação.
 
Deus disse que cada homem deverá retirar o alimento da terra com o suor de seu rosto. Santificou o trabalho e a inteligência que o guia. Por isso, não permite que os Espíritos trabalhem por nós. Fica assim, inteiramente sob nossa responsabilidade, a busca da verdade; receberemos o mérito do trabalho realizado ou o demérito da preguiça.
 
Isso não significa que os Espíritos assistam o andar humano sem nenhuma interferência. Estarão sempre influenciando, aconselhando e inspirando os bons homens na evolução do Planeta, mas jamais irão trabalhar por eles, substituindo o livre arbítrio e a inteligência de cada um. Em casos raríssimos, podem ocorrer revelações sobre a verdade de um crime ou criminoso. “Se uma revelação deve ser feita por meios extra-humanos, Deus saberá dar-lhe uma marca de autenticidade capaz de levantar todas as dúvidas....”. 3 Os Espíritos atrasados, estes sim, estarão sempre dispostos a responder tudo que se lhes perguntar, sem compromisso com a verdade que normalmente desconhecem ou , se conhecem, estão proibidos de revelar.
 
Quanto ao trabalho policial podemos deduzir certas regras ou orientações sem a pretensão de esgotar o assunto. Para auxiliar aqueles que queiram utilizar seriamente a capacidade mediúnica, no trabalho de investigação, apresentamos alguns parâmetros que podem ser úteis:
 
1- Qualquer informação recebida por trabalho mediúnico deve ser tratada como informação anônima, sendo verificada com cuidados redobrados.
2- Não estando os Espíritos à nossa disposição, não é indicado manter médiuns como auxiliares permanentes do trabalho policial.
3- Não havendo como confirmar sempre a identificação dos Espíritos, além do que, muitas vezes o desencarnado perde todo o interesse dos fatos ocorridos na terra, devemos duvidar metodicamente de recém desencarnados que se manifestem a respeito de delitos que teriam se envolvido de alguma forma.
4- Quanto mais recente a morte da vítima, maior a dúvida quanto à sua identidade na manifestação mediúnica.
5- As informações jamais deverão ser remuneradas, seja com dinheiro, propaganda ou qualquer outro benefício ao médium.
6- As informações por intermédio de médiuns deve ser analisadas em conjunto com todas as outras provas obtidas no trabalho de investigação.
7- Não se deve revelar nada de relevante ao médium a respeito dos fatos investigados, seja antes, ou depois da manifestação espiritual.
8- O fato dos Espíritos saberem algo ainda não conhecido na investigação, não significa que eles saibam tudo ou tenha permissão para revelar tudo que sabem.
9- Nunca insistir em questão alguma não respondida para evitar Espíritos levianos que darão informações erradas por diversão.
10- Na dúvida, deve-se descartar a informação, se realmente for verdade os Espíritos superiores saberão fazer chegar a quem direito de forma fortuita.
11 – A manifestação mediúnica é apenas um auxiliar da investigação e não um substituto dela.
12- A manifestação mediúnica apenas indica um caminho a seguir, ficando a cargo do policial, obter provas com o uso de sua inteligência e trabalho.
13- Receber com muita cautela quando um Espírito revelar tudo a respeito do crime investigado, isto é indício de falsidade.
14- Não se preocupar com a ausência de informações porque não sabemos das Escolhas do Espírito antes de encarnar. Muitas vezes, nós mesmos escolhemos nossas provas, e nos livrar delas seria um desserviço. 4
15- Devemos confiar em Deus porque somos imperfeitos. Ele sabe o que seria bom nos revelar ou não.
16- O médium não é testemunha, é apenas intermediário na comunicação entre mortos e vivos. Muitos são chamados de inconscientes porque nada presenciam quando estão em transe mediúnico.
 
Utilizando-se destes critérios, é possível obter muita ajuda espiritual no trabalho policial, sem cair no ridículo e na pieguice das mistificações que poderiam levar em torno do assunto. Além do mais, se evitaria a descrença ao afirmar que o Espiritismo seria a solução final para desvendar todos os delitos. Na verdade, a Doutrina Espírita é a solução para suportarmos com resignação e fé as dores dos crimes que ainda suportaremos por muito mais tempo na Terra.
 
Notas:
1 - Um resumo de outros casos pode ser encontrado facilemente na internet.
2 - O ensinamento é confirmado no Livro Céu e Inferno do mesmo autor na primeira parte do capítulo XI e no Evangelho Segundo o Espiritismo no capítulo XIII, item 06.
3 - Kardec, Allan. Revista Espírita, março de 1861. Artigo. O assassinato do Senhor Poinsot.
4 - Vide resposta da questão 250 e seguintes do Livro dos Espíritos.
 
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Dr. João Francisco Crusca é delegado da Polícia Civil do Estado de São Paulo, Coordenador da UDEsp (União dos Delegados Espíritas do Estado de São Paulo) e membro do Centro Espírita Grupo Fraterno, na capital paulistana.